9.3. Distribuição assintótica estacionária dos processos de Ornstein-Uhlenbeck

Considere um processo de Ornstein-Uhlenbeck

dXt=νXt dt+σ dWt, \mathrm{d}X_t = - \nu X_t \;\mathrm{d}t + \sigma \;\mathrm{d}W_t,

com ν,σ>0.\nu, \sigma > 0. A sua solução é

Xt=eνtX0+σ0teν(ts) ds. X_t = e^{-\nu t}X_0 + \sigma \int_0^t e^{-\nu(t - s)}\;\mathrm{d}s.

Vimos, também, que

E[Xt]=eνtE[X0]0 \mathbb{E}[X_t] = e^{-\nu t}\mathbb{E}[X_0] \rightarrow 0

e

Var(Xt)e2νt Var(X0)+σ22ν(1e2νt)σ22ν, \mathrm{Var}(X_t) \rightarrow e^{-2\nu t}\;\mathrm{Var}(X_0) + \frac{\sigma^2}{2\nu}\left(1 - e^{-2\nu t}\right) \rightarrow \frac{\sigma^2}{2\nu},

quando t.t \rightarrow \infty. Como XtX_t é um processo Gaussiano, vemos que, no limite t,t\rightarrow \infty,

XtXN(0,σ22ν). X_t \rightarrow X_\infty \sim \mathcal{N}\left(0, \frac{\sigma^2}{2\nu}\right).

Isso pode ser obtido, também, através da equação de Fokker-Planck. De acordo com essa equação, a função densidade de probabilidade p=p(x)p=p(x) de uma distribuição estacionária desse processo é dada por

νddx(xp(x))+σ22d2pdx2(x)=0. \nu \frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}x}(x p(x)) + \frac{\sigma^2}{2}\frac{\mathrm{d}^2 p}{\mathrm{d}x^2}(x) = 0.

Integrando,

νxp(x)+σ22dpdx(x)=C, \nu x p(x) + \frac{\sigma^2}{2}\frac{\mathrm{d} p}{\mathrm{d}x}(x) = C,

para uma constante apropriada C.C. É natural procurarmos uma solução simétrica em relação à origem, já que a equação assim o é. Nesse caso, p(0)=0,p'(0) = 0, o que nos dá

C=0. C = 0.

Observe que, caso C>0,C > 0, então

σ22dpdx(x)=Cνxp(x)C>0, \frac{\sigma^2}{2}\frac{\mathrm{d} p}{\mathrm{d}x}(x) = C - \nu x p(x) \geq C > 0,

para x<0,x < 0, visto que p0.p \geq 0. Mas isso nos leva a uma contradição, pois teríamos p,p\rightarrow -\infty, quando x,x \rightarrow -\infty, contradizendo o fato de que p0.p \geq 0. Da mesma forma, se C<0,C < 0, então

σ22dpdx(x)=Cνxp(x)C<0, \frac{\sigma^2}{2}\frac{\mathrm{d} p}{\mathrm{d}x}(x) = C - \nu x p(x) \leq C < 0,

para x>0.x > 0. Novamente, p,p\rightarrow -\infty, quando x,x \rightarrow \infty, contradizendo o fato de que p0.p\geq 0.

Portanto, a única solução possível deve satisfazer

dpdx(x)=2νxσ2p(x). \frac{\mathrm{d} p}{\mathrm{d}x}(x) = - \frac{2 \nu x}{\sigma^2} p(x).

Essa equação é linear e também é separável. De qualquer forma, obtemos a solução

p(x)=C0eνx2σ2, p(x) = C_0 e^{-\frac{\nu x^2}{\sigma^2}},

para alguma constante C0.C_0.

Lembramos, agora, que p=p(x)p=p(x) deve ser uma função densidade de probabilidade, i.e.

p(x) dx=1. \int_{-\infty}^\infty p(x) \;\mathrm{d}x = 1.

Sob essas condições, devemos ter

p(x)=νπσ2eνx2/σ2, p(x) = \frac{\sqrt{\nu}}{\sqrt{\pi \sigma^2}} e^{- \nu x^2/\sigma^2},

que é, de fato, a função densidade de probabilidade de uma distribuição N(0,σ22ν).\mathcal{N}\left(0, \frac{\sigma^2}{2\nu}\right).

Exercícios

  1. Encontre a equação de Fokker-Plank para ν dXt=U(x) dt+σ dWt\nu\;\mathrm{d}X_t = - U'(x)\;\mathrm{d}t + \sigma\;\mathrm{d}W_t e mostre que e2νU(x)/σ2e^{-2\nu U(x)/\sigma^2} é uma solução estacionária da equação (correspondendo a uma solução estacionária da equação diferencial estocástica com função densidade de probabilidade com constante de normalização 2πσ2/2ν\sqrt{2\pi \sigma^2}/2\nu).

  2. Deduza a equação de Fokker-Plank para a densidade p=p(t,x,y)p=p(t, x, y) associada ao sistema

{dXt=Yt,dYt=νYt dtU(Xt) dt+σ dWt \begin{cases} \mathrm{d}X_t = Y_t, \\ \mathrm{d}Y_t = - \nu Y_t \;\mathrm{d}t - U'(X_t) \;\mathrm{d}t + \sigma \;\mathrm{d}W_t \end{cases}

e mostre que e(2ν/σ2)(y2/2+U(x))e^{-(2\nu/\sigma^2)\left(y^2/2 + U(x)\right)} é uma solução estacionária da equação.

  1. Dada uma densidade de distribuição q(x)=f(x)/Zq(x) = f(x)/Z onde f>0f > 0 é uma função integrável e Z=f(x) dxZ = \int_{-\infty}^\infty f(x)\;\mathrm{d}x é uma constante de normalização, podemos escrever essa densidade na forma q(z)=eU(x)/Z,q(z) = e^{-U(x)}/Z, onde U(x)=lnf(x).U(x) = - \ln f(x). Assim, vemos que q(x)=eU(x)/Zq(x) = e^{-U(x)}/Z é uma solução estacionária da equação diferencial estocástica

dXt=lnf(x) dt+2 dWt, \mathrm{d}X_t = \nabla\ln f(x)\;\mathrm{d}t + \sqrt{2}\;\mathrm{d}W_t,

onde lnf(x)\nabla\ln f(x) é chamada de função score de Stein e que, nesse caso unidimensional, é simplesmente lnf(x)=d(lnf(x))/dx.\nabla\ln f(x) = \mathrm{d}(\ln f(x))/\mathrm{d}x. Com isso em mente, simule numericamente essa equação de Fokker-Planck com condição inicial X0N(0,1)X_0 \sim \mathcal{N}(0, 1) até um instante t=Tt=T suficientemente grande, para gerar amostras aleatórias de uma mistura (1θ)N(μ1,σ12)+θN(μ2,σ22)(1 - \theta)\mathcal{N}(\mu_1, \sigma_1^2) + \theta\mathcal{N}(\mu_2, \sigma_2^2) de Gaussianas, com, por exemplo, θ=1/3\theta = 1/3, μ1=3, \mu_1 = 3, σ=1,\sigma = 1, μ2=7,\mu_2 = 7, σ2=0.5.\sigma_2 = 0.5. Faça um histograma normalizado das amostras obtidas para XT,X_T, junto com a PDF da mistura.

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