2.5. Probabilidade condicionada

O conceito de probabilidade condicionada é fundamental. Invariavelmente, quando queremos saber a probabilidade de um determinado evento acontecer, temos outras informações à nossa disposição que podemos aproveitar.

Conceito

A probabilidade condicionada diz respeito à probabilidade de um determinado evento ser realizado, assumindo-se a realização de um outro evento. A probabilidade de um determinado evento AA dado a realização de um outro evento BB é denotada por

P(AB). P(A | B).

Note que isso é diferente da probabilidade conjunta AB.A \cap B. De fato, se AA for o espaço Ω\Omega todo, então a probabilidade de Ω\Omega deve ser um. Ou seja, P(ΩB)=1.\mathbb{P}(\Omega | B) = 1. Por outro lado, P(ΩB)=P(B).\mathbb{P}(\Omega \cap B) = \mathbb{P}(B).

Podemos ver a probabilidade condicionada a um evento BB como uma fração da probabilidade do evento BB ocorrer:

P(AB)=P(AB)P(B). \mathbb{P}(A | B) = \frac{\mathbb{P}(A \cap B)}{\mathbb{P}(B)}.

É claro que é necessário que P(B)>0\mathbb{P}(B) > 0 para essa fórmula valer. Essa fórmula é conhecida como a lei da probabilidade condicionada.

A definição, propriamente, de probabilidade condicionada é bem mais delicada. Veremos isso posteriormente. No momento, vamos seguir com a intuição.

Exemplos

Seja XX uma variável aleatória com distribuição uniforme em Σ={1,2,,9}.\Sigma = \{1, 2, \ldots, 9\}. Desses, {2,4,6,8}\{2, 4, 6, 8\} são pares e {3,6,9}\{3, 6, 9\} são múltiplos de 3.3. Assim,

P(X eˊ par)=49,P(X eˊ muˊltiplo de 3)=39=13,P(X eˊ par e muˊltiplo de 3)=19. \mathbb{P}(X \textrm{ é par}) = \frac{4}{9}, \quad \mathbb{P}(X \textrm{ é múltiplo de 3}) = \frac{3}{9} = \frac{1}{3}, \quad \mathbb{P}(X \textrm{ é par e múltiplo de 3}) = \frac{1}{9}.

Agora, sabendo-se que XX é múltiplo de 3,3, quais as chances de XX ser par? Naturalmente, temos uma única possibilidade em três: {6}\{6\} em {3,6,9},\{3, 6, 9\}, ou seja,

P(X eˊ par X eˊ muˊltiplo de 3)=13. \mathbb{P}(X \textrm{ é par } | X \textrm{ é múltiplo de 3}) = \frac{1}{3}.

Podemos obter esse mesmo resultado através da lei da probabilidade condicionada:

P(X eˊ par X eˊ muˊltiplo de 3)=P(X eˊ par e muˊltiplo de 3)P(X eˊ muˊltiplo de 3)=1913=39=13. \mathbb{P}(X \textrm{ é par } | X \textrm{ é múltiplo de 3}) = \frac{\mathbb{P}(X \textrm{ é par e múltiplo de 3})}{\mathbb{P}(X \textrm{ é múltiplo de 3})} = \frac{\displaystyle\frac{1}{9}}{\displaystyle\frac{1}{3}} = \frac{3}{9} = \frac{1}{3}.

E quais as chances de XX ser múltiplo de três dado que é par?

Um outro exemplo importante em que podemos usar probabilidade condicionada é em testes clínicos, como a da eficácia de vacinas, que ficou tanto em evidência com a Covid-19. Considere um certo número de voluntários, digamos 1000, envolvidos em um certo ensaio clínico. Desses, 500 seguem o tratamento e 500 tomam placebo. Dos que tomam placebo, 20 desenvolvem sintomas da doença. Dos que seguem o tratamento, apenas 5 desenvolvem sintomas. Isso pode ser representado pela tabela a seguir.

adoecem (A)não adoecem
tratamento (B)5495
placebo40460

No total, temos 10001000 voluntários, sendo que 2525 desse total adoecem e apenas 55 seguem o tratamento e adoecem. Denotando por AA o evento de adoecer e por BB o de seguir o tratamento, podemos escrever

P(AB)=51000,P(B)=5001000. \mathbb{P}(A \cap B) = \frac{5}{1000}, \quad \mathbb{P}(B) = \frac{500}{1000}.

Com isso, podemos obter a probabilidade de alguém adoecer fazendo o tratamento:

P(AB)=P(AB)P(B)=510005001000=5500=1%. \mathbb{P}(A | B) = \frac{\mathbb{P}(A \cap B)}{\mathbb{P}(B)} = \frac{\displaystyle \frac{5}{1000}}{\displaystyle \frac{500}{1000}} = \frac{5}{500} = 1\%.

Também podemos visualizar isso completando a tabela com os totais:

adoecem (A)não adoecemtotal
tratamento (B)5495500
placebo40460500
total459751000

Vemos, diretamente, na primeira coluna, que 55 adoceram dentre os 500500 que fizeram o tratamento, ou seja, há 5/500=1%5/500 = 1\% de chance de adoecer se seguirmos o tratamento. Da mesma forma, sem tratamento, temos 40/500=8%40/500 = 8\% de chances de adoecer. Nesse caso, podemos dizer que o tratamento reduziu de 8%8\% a 1%1\% as chances de adoecer. Ou seja, houve uma redução relativa de (8%1%)/8%=7/8=87,5%.(8\% - 1\%)/8\% = 7/8 = 87,5\%.

Eventos independentes

Quando as chances de um evento AA acontecer independem de um outro evento B,B, podemos expressar isso por

P(AB)=P(A). \mathbb{P}(A | B) = \mathbb{P}(A).

Essa propriedade é recíproca, ou seja, AA independe de BB se, e somente se, BB independe de A,A, com

P(BA)=P(B). \mathbb{P}(B | A) = \mathbb{P}(B).

Observe que, pela lei da probabilidade condicionada, se P(B)>0,\mathbb{P}(B) > 0, então, que

P(A)=P(AB)=P(AB)P(B), \mathbb{P}(A) = \mathbb{P}(A | B) = \frac{\mathbb{P}(A \cap B)}{\mathbb{P}(B)},

ou seja, assumindo-se P(B)>0,\mathbb{P}(B) > 0, temos a caracterização

P(AB)=P(A)P(AB)=P(A)P(B). \mathbb{P}(A | B) = \mathbb{P}(A) \quad \Leftrightarrow \quad \mathbb{P}(A \cap B) = \mathbb{P}(A)\mathbb{P}(B).

Da mesma forma, se P(A)>0,\mathbb{P}(A) > 0, então,

P(BA)=P(B)P(BA)=P(B)P(A). \mathbb{P}(B | A) = \mathbb{P}(B) \quad \Leftrightarrow \quad \mathbb{P}(B \cap A) = \mathbb{P}(B)\mathbb{P}(A).

Em particular, se P(A),P(B)>0,\mathbb{P}(A), \mathbb{P}(B) > 0, então

P(AB)=P(A)P(AB)=P(A)P(B)P(BA)=P(B). \mathbb{P}(A | B) = \mathbb{P}(A) \quad \Leftrightarrow \quad \mathbb{P}(A \cap B) = \mathbb{P}(A)\mathbb{P}(B) \quad \Leftrightarrow \quad \mathbb{P}(B | A) = \mathbb{P}(B).

Por exemplo, as chances do resultado de um dado não viciado de seis faces dar um número menor ou igual a quatro é independente do número ser par ou ímpar e é sempre igual a dois terços. Já as chances do número ser menor ou igual a três depende: é igual a meio, se não soubermos a sua paridade, é igual a um terço, se o número for par, é igual a dois terços, se o número for ímpar.

Lei da probabilidade total

Um resultado importante em probabilidade pode ser interpretado como uma estratégia de dividir para conquistar. Digamos que P\mathbb{P} seja uma medida de probabilidade em um espaço amostral Ω.\Omega. Suponha que queiramos saber a medida de um determinado conjunto A.A. Suponha, ainda, que seja razoável dividir o espaço em subconjuntos disjuntos B1,,Bk,B_1, \ldots, B_k, ou seja, Ω=j=1kBj\Omega = \cup_{j = 1}^k B_j e BiBj=,B_i \cap B_j = \emptyset, ij,i\neq j, i,j=1,,k.i, j = 1, \ldots, k. Então, vale a lei da probabilidade total

P(A)=P(AB1)++P(ABk). \mathbb{P}(A) = \mathbb{P}(A \cap B_1) + \ldots + \mathbb{P}(A \cap B_k).

Juntando com a lei da probabilidade condicionada, podemos escrever

P(A)=P(AB1)P(B1)++P(ABk)P(Bk). \mathbb{P}(A) = \mathbb{P}(A | B_1)\mathbb{P}(B_1) + \ldots + \mathbb{P}(A | B_k)\mathbb{P}(B_k).

Considerando, novamente, a variável aleatória uniformemente distribuída nos dígitos {1,2,,9},\{1, 2, \ldots, 9\}, temos

P(X eˊ muˊltiplo de 3)=P(X eˊ par muˊltiplo de 3)+P(X eˊ ıˊmpar muˊltiplo de 3)=19+29=39=13. \mathbb{P}(X \textrm{ é múltiplo de 3}) = \mathbb{P}(X \textrm{ é par múltiplo de 3}) + \mathbb{P}(X \textrm{ é ímpar múltiplo de 3}) = \frac{1}{9} + \frac{2}{9} = \frac{3}{9} = \frac{1}{3}.

Ou, usando probabilidade condicionada,

P(X eˊ muˊltiplo de 3)=P(X eˊ muˊltiplo de 3X eˊ par )P(X eˊ par)+P(X eˊ muˊltiplo de 3X eˊ ıˊmpar )P(X eˊ ıˊmpar)=14×49+25×59=19+29=13. \begin{align*} \mathbb{P}(X \textrm{ é múltiplo de 3}) & = \mathbb{P}(X \textrm{ é múltiplo de 3} | X \textrm{ é par })\mathbb{P}(X \textrm{ é par}) \\ & \qquad + \mathbb{P}(X \textrm{ é múltiplo de 3} | X \textrm{ é ímpar })\mathbb{P}(X \textrm{ é ímpar}) \\ & = \frac{1}{4}\times\frac{4}{9} + \frac{2}{5}\times\frac{5}{9} = \frac{1}{9} + \frac{2}{9} \\ & = \frac{1}{3}. \end{align*}

Seguindo na linha de ensaios clínicos, digamos que haja um novo teste para a detecção de alguma doença endêmica que, estima-se, atinge 1% da população. Ensaios clínicos indicam que o teste possui 96% de acerto, ou seja, que, em cada 100 pessoas com a doença, o teste dá resultado positivo em 96 delas. E que ele tem 0,1% de falsos positivos. Ou seja, de cada 1000 pessoas sem a doença, o teste dá positivo em 1 delas. Se uma pessoa qualquer faz o teste, quais as chances dela testar positivo, independentemente de ter ou não a doença?

Vejamos. Se DD indica o evento de se ter a doença e P,P, do evento do teste dar positivo, a lei da probabilidade total nos diz que

P(P)=P(PD)P(D)+P(P¬D)¬D, \mathbb{P}(P) = \mathbb{P}(P | D)\mathbb{P}(D) + \mathbb{P}(P | \neg D)\mathbb{\neg D},

onde ¬D\neg D é o complemento de D,D, ou seja, nesse caso, representa não ter a doença. As informações nos dizem que

P(PD)=0.96,P(P¬D)=0.001,P(D)=0.01. \mathbb{P}(P | D) = 0.96, \qquad \mathbb{P}(P | \neg D) = 0.001, \qquad \mathbb{P}(D) = 0.01.

Além disso,

P(¬D)=1P(A)=0.99. \mathbb{P}(\neg D) = 1 - \mathbb{P}(A) = 0.99.

Portanto, as chances de uma pessoa qualquer testar positivo é de

P(P)=0.96×0.01+0.001×0.99=0.01059. \mathbb{P}(P) = 0.96 \times 0.01 + 0.001 \times 0.99 = 0.01059.

Ou seja, as chances de uma pessoa qualquer testar positivo são de 1,059%.

Teorema de Bayes

Dados dois eventos AA e BB com probabilidade positiva, temos que

P(AB)=P(AB)P(B) \mathbb{P}(A | B) = \frac{\mathbb{P}(A \cap B)}{\mathbb{P}(B)}

e

P(BA)=P(AB)P(A). \mathbb{P}(B | A) = \frac{\mathbb{P}(A \cap B)}{\mathbb{P}(A)}.

Substituindo, na primeira identidade, a expressão para P(AB)\mathbb{P}(A \cap B) obtida da segunda identidade, obtemos o resultado do Teorema de Bayes:

P(AB)=P(BA)P(A)P(B). \mathbb{P}(A | B) = \frac{\mathbb{P}(B | A)\mathbb{P}(A)}{\mathbb{P}(B)}.

O Teorema de Bayes tem inúmeras aplicações. Pensemos, novamente, no exemplo do ensaio clínico acima, de um teste com 96% de acerto para alguma doença endêmica que atinge 1% da população, com 0,1% de falsos positivos. Se uma pessoa qualquer testar positivo, quais as chances dela realmente estar com a doença?

Vejamos. Se DD indica o evento de se ter a doença e T,T, o evento do teste dar positivo, então a probabilidade de se ter a doença dado que o teste deu positivo é representada por P(DT).\mathbb{P}(D | T). De acordo com o Teorema de Bayes,

P(DT)=P(TD)P(D)P(T). \mathbb{P}(D | T) = \frac{\mathbb{P}(T | D)\mathbb{P}(D)}{\mathbb{P}(T)}.

Sabemos que P(TD)=0.96\mathbb{P}(T | D) = 0.96 e que P(D)=0.01.\mathbb{P}(D) = 0.01. Vimos, também, usando a lei da probabilidade total, que P(T)=0.01059.\mathbb{P}(T) = 0.01059. Logo,

P(AB)=0.96×0.010.010590.9065 \mathbb{P}(A | B) = \frac{0.96 \times 0.01}{0.01059} \approx 0.9065

Ou seja, as chances de alguém que testou positivo realmente ter a doença são de 90,65%.

Exercício

  1. Mostre, na lei da probabilidade total, que basta que P(B1Bk)=1\mathbb{P}(B_1 \cup \cdots \cup B_k) = 1 e P(BiBj)=0,\mathbb{P}(B_i \cap B_j) = 0, para i,j=1,,k,i, j = 1, \ldots, k, com ij.i \neq j.

  2. Em um torneio de xadrez, podemos classificar os jogadores em níveis A, B e C. Além de você, há 3 jogadores de nível A, 4 de nível B e 8 de nível C. O seu primeiro oponente é sorteado aleatoriamente dentre esses. As suas chances de vitória são P(vitoˊriaoponente nıˊvel A)=0.5,\mathbb{P}(\textrm{vitória} | \textrm{oponente nível A}) = 0.5, P(vitoˊriaoponente nıˊvel B)=0.65\mathbb{P}(\textrm{vitória} | \textrm{oponente nível B}) = 0.65 e P(vitoˊriaoponente nıˊvel C)=0.8.\mathbb{P}(\textrm{vitória} | \textrm{oponente nível C}) = 0.8. Quais as suas chances de vitória no primeiro jogo?

  3. No exemplo do teste clínico, suponha, no entanto, que a doença atinge apenas 0,1% da população, mantendo a eficácia do teste em 96% e a taxa de falsos positivos em 0,1%. Encontre as chances de uma pessoa qualquer ser testada positivo e as chances de uma pessoa testada positivo realmente ter a doença. Repita as contas no caso em que a doença atinge 1% e a taxa de falsos positivos sobe para 1%.

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