6.4. Limites de somatórios à la Riemann-Stieltjes

Vimos uma maneira de definir a integral em relação a processos {Yt}t\{Y_t\}_t cujos caminhos amostrais não são de variação limitada. Mas apenas integrandos da forma g(t,Yt),g(t, Y_t), para certos tipos particulares de funções, são permitidos (g=g(t)g = g(t) continuamente diferenciáveis ou g=g(t,y)=∂yG(t,y)g=g(t, y) = \partial_y G(t, y)). Queremos estender a noção de integral para funções mais gerais e com integrandos da forma g(t,Xt),g(t, X_t), i.e. envolvendo processos {Xt}t\{X_t\}_t diferentes daquele em relação ao qual estamos integrando. A motivação é prática: queremos integrar em relação a um processo de Wiener.

A integral definida anteriormente não foi feita diretamente em termos de somas de Riemann ou de integrais de funções simples. Foi definida na forma de dualidade (seja via fórmula de integração por partes, quando g=g(t)g=g(t) é diferenciável, ou via fórmula de mudança de variáveis, quando g=g(t,y)=∂yG(t,y)g=g(t, y) = \partial_y G(t, y)). Aqui, por outro lado, vamos investigar um caminho semelhante ao feito em integrais de Riemann-Stieltjes.

Na integral de Riemann-Stieltjes, consideramos malhas cada vez mais finas e aproximamos a função por funções constantes por partes, mais precisamente constantes em cada subintervalo da malha, cuja integral se reduz a um somatório finito. O valor em cada subintervalo da malha é determinado pelo valor da função em um ponto escolhido arbitrariamente em cada subintervalo. O limite do somatório deve existir e ser único independentemente da escolha desse ponto em cada subintervalo. Isso é possível sempre que a função integrada é contínua ou tem descontinuidades em um conjunto de medida nula.

Veremos, a seguir, que esse limite pode não ser único, ou não existir, quando integramos em relação a um processo de Wiener e escolhemos os pontos de forma arbitrária. A regularidade do integrando não é o problema. Muitas vezes vamos integrar processos cujos caminhos são contínuos. O problema é a possível dependência entre o integrando Xθ,X_{\theta}, em um ponto qualquer t≤θ≤t+Δt,t \leq \theta \leq t + \Delta t, e o passo Wt+δt−Wt.W_{t + \delta t} - W_t. Por conta disso o limite irá depender da escolha do ponto e pode não convergir se a escolha não for feita de forma sistemática.

Para ilustrar a complexidade desse problema, vamos considerar diferentes somas de Riemann associadas à seguinte integral envolvendo um processo de Wiener {Wt}t≥0\{W_t\}_{t\geq 0}:

∫0TWt dWt. \int_0^T W_t \;\mathrm{d}W_t.

Observe que, via dualidade com a fórmula de mudança de variáveis, tomando G(y)=y2/2,G(y) = y^2/2, temos g(y)=G′(y)=yg(y) = G'(y) = y e

∫0TWt∘ dWt=G(WT)−G(W0)=WT2. \int_0^T W_t \circ \;\mathrm{d}W_t = G(W_T) - G(W_0) = \frac{W_T}{2}.

O que acontece se, por outro lado, considerarmos as somas de Riemann-Stieltjes associada a essa integral?

Somas de Riemann-Stieltjes

Se os caminhos fossem, quase certamente, de variação limitada, poderiamos definir, para quase todo ω,\omega,

∫0TWt dWt=lim⁡∥M∥→0∑j=1nWθj(Wtj−Wtj−1), \int_0^T W_t \;\mathrm{d}W_t = \lim_{\|M\| \rightarrow 0} \sum_{j=1}^{n} W_{\theta_j} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}),

onde 0=t0<t1<…<tn=T0 = t_0 < t_1 < \ldots < t_n = T e cada θj\theta_j é um número arbitrário em tj−1≤θj≤tj,t_{j-1} \leq \theta_j \leq t_j, j=1,…,n.j = 1, \ldots, n.

Mas como {Wt}t≥0\{W_t\}_{t\geq 0} não é de variação limitada, esse limite pode não existir. De fato, vamos ver que esse limite não existe.

Mais precisamente, vamos ver que, fixando 0≤λ≤10 \leq \lambda \leq 1 e escolhendo θj\theta_j como

θjλ=(1−λ)tj−1+λtj, \theta_j^\lambda = (1 - \lambda) t_{j-1} + \lambda t_j,

o limite acima existe, sim, mas depende de λ.\lambda.

Para vermos isso, dada uma partição M={tj}j=0nM = \{t_j\}_{j=0}^n como acima e dado λ\lambda satisfazendo 0≤λ≤1,0 \leq \lambda \leq 1, definimos

RM(λ)=∑j=1nWθjλ(Wtj−Wtj−1). R_M(\lambda) = \sum_{j=1}^{n} W_{\theta_j^\lambda} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}).

Denotamos, ainda,

∥M∥=max⁡j=1,…,n{tj−tj−1}. \|M\| = \max_{j=1, \ldots, n}\{t_j - t_{j-1}\}.

Vamos calcular, a seguir, o limite de RM(λ)R_M(\lambda) quando ∥M∥→0,\|M\|\rightarrow 0, no caso λ=0,\lambda = 0, depois no caso λ=1\lambda = 1 e, finalmente, no caso geral 0≤λ≤1.0 \leq \lambda \leq 1.

Caso λ=0\lambda = 0

Nesse caso, temos

RM(0)=∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1). R_M(0) = \sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}).

Se o processo de Wiener fosse de variação limitada, teríamos RM(0)R_M(0) convergindo para WT2/2.W_T^2/2. Pensando nisso, vamos analisar a discrepância entre RM(0)R_M(0) e WT2/2,W_T^2/2, dada por

DM=RM(0)−WT22. D_M = R_M(0) - \frac{W_T^2}{2}.

Reescrevendo WT2W_T^2 como soma telescópica, temos

DM=∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1)−12∑j=1n(Wtj2−Wtj−12)=∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1)−12∑j=1n(Wtj+Wtj−1)(Wtj−Wtj−1)=∑j=1n(Wtj−1−12Wtj−12Wtj−1)(Wtj−Wtj−1)=∑j=1n(12Wtj−1−12Wtj)(Wtj−Wtj−1)=−12∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2 \begin{align*} D_M & = \sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) - \frac{1}{2}\sum_{j=1}^{n} (W_{t_j}^2 - W_{t_{j-1}}^2) \\ & = \sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) - \frac{1}{2}\sum_{j=1}^{n} (W_{t_j} + W_{t_{j-1}})(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \\ & = \sum_{j=1}^{n} \left(W_{t_{j-1}} - \frac{1}{2}W_{t_j} - \frac{1}{2}W_{t_{j-1}}\right)(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \\ & = \sum_{j=1}^{n} \left(\frac{1}{2}W_{t_{j-1}} - \frac{1}{2}W_{t_j}\right)(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \\ & = -\frac{1}{2}\sum_{j=1}^{n} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2 \\ \end{align*}

Esse somatório foi considerado na seção 5.7. Variação ilimitada dos caminhos amostrais, onde mostramos, para uma malha qualquer, que o valor esperado satisfaz

E[∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2]=∑j=1n(tj−tj−1)=tn−t0=T, \mathbb{E}\left[\sum_{j=1}^n \left(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}\right)^2\right] = \sum_{j=1}^n (t_j - t_{j-1}) = t_n - t_0 = T,

enquanto que o momento de segunda ordem satisfaz

E[(∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2)2]=∑i,j=1n(ti−ti−1)(tj−tj−1)+2∑j=1n(tj−tj−1)2. \mathbb{E}\left[\left(\sum_{j=1}^n \left(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}\right)^2\right)^2\right] = \sum_{i, j = 1}^n (t_i - t_{i-1})(t_j - t_{j-1}) + 2\sum_{j = 1}^n (t_j - t_{j-1})^2.

Naquela seção, usamos, em seguida, que as malhas são diádicas, para obter a convergência, quase certamente, para T.T. Aqui, temos uma malha qualquer e vamos nos contentar com a convergência em probabilidade. De fato, podemos escrever, mesmo para uma malha qualquer, que

∑i,j=1n(ti−ti−1)(tj−tj−1)=∑i=1n(ti−ti−1)∑j=1n(tj−tj−1)=T2 \sum_{i, j = 1}^n (t_i - t_{i-1})(t_j - t_{j-1}) = \sum_{i = 1}^n (t_i - t_{i-1}) \sum_{j = 1}^n (t_j - t_{j-1}) = T^2

e

∣∑j=1n(tj−tj−1)2∣≤max⁡j{∣tj−tj−1∣}∑j=1n(tj−tj−1)=Tmax⁡j{∣tj−tj−1∣}→0. \left| \sum_{j=1}^{n} (t_j - t_{j-1})^2 \right| \leq \max_j\{|t_j - t_{j-1}|\}\sum_{j=1}^{n} (t_j - t_{j-1}) = T\max_j\{|t_j - t_{j-1}|\} \rightarrow 0.

Dessa forma,

Var(∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2)=E[(∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2)2]−E[∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2]2=2∑j=1n(tj−tj−1)2→0. \begin{align*} \mathrm{Var}\left( \sum_{j=1}^n (W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2\right) & = \mathbb{E}\left[\left(\sum_{j=1}^n \left(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}\right)^2\right)^2\right] - \mathbb{E}\left[\sum_{j=1}^n \left(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}\right)^2\right]^2 \\ & = 2\sum_{j = 1}^n (t_j - t_{j-1})^2 \rightarrow 0. \end{align*}

Como o valor esperado é igual à constante TT e a variância converge para zero, obtemos a convergência em probabilidade

∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2→T. \sum_{j=1}^{n}(W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2 \rightarrow T.

Juntando os resultados dos dois somatórios, obtemos, ao refinarmos a malha, a convergência em probabilidade

RM(0)→12WT2−12T, R_M(0) \rightarrow \frac{1}{2}W_T^2 - \frac{1}{2}T,

no limite ∥M∥→0.\|M\| \rightarrow 0.

Observe que, no limite,

E[12WT2−12T]=12E[WT2]−12T=12T−12T=0. \mathbb{E}\left[ \frac{1}{2}W_T^2 - \frac{1}{2}T\right] = \frac{1}{2}\mathbb{E}[W_T^2] - \frac{1}{2}T = \frac{1}{2}T - \frac{1}{2}T = 0.

Na verdade, o valor esperado do somatório já é nulo:

E[∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1)]=∑j=1nE[Wtj−1(Wtj−Wtj−1)]=∑j=1nE[Wtj−1Wtj]−∑j=1nE[Wtj−12]=∑j=1nmin⁡{tj−1,tj}−∑j=1ntj−1=0. \begin{align*} \mathbb{E}\left[\sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \right] & = \sum_{j=1}^{n} \mathbb{E}\left[W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}})\right] \\ & = \sum_{j=1}^{n} \mathbb{E}\left[W_{t_{j-1}}W_{t_j}\right] -\sum_{j=1}^{n} \mathbb{E}\left[W_{t_{j-1}}^2\right] \\ & = \sum_{j=1}^{n} \min\{t_{j-1}, t_j\} -\sum_{j=1}^{n} t_{j-1} \\ & = 0. \end{align*}

Um caminho alternativo a considerar a discrepância DM=RM(0)−WT2/2D_M = R_M(0) - W_T^2/2 é trabalhar diretamente com RM(0)R_M(0) e escrever, para cada jj do somatório,

Wtj−1(Wtj−Wtj−1)=Wtj−1(Wtj−Wtj−1)±12Wtj(Wtj−Wtj−1)=12(Wtj+Wtj−1)(Wtj−Wtj−1)−12(Wtj−Wtj−1)(Wtj−Wtj−1)=12(Wtj2−Wtj−12)−12(Wtj−Wtj−1)2, \begin{align*} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) & = W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \pm \frac{1}{2}W_{t_j} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \\ & = \frac{1}{2}(W_{t_j} + W_{t_{j-1}})(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) - \frac{1}{2}(W_{t_j} - W_{t_{j-1}})(W_{t_j }- W_{t_{j-1}}) \\ & = \frac{1}{2}(W_{t_j}^2 - W_{t_{j-1}}^2) - \frac{1}{2}(W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2, \end{align*}

e mostrar que o somatório dos termos do lado direito converge para WT2/2−T/2,W_T^2/2 - T/2, mas o caminho acima parece um pouco mais natural.

Caso λ=1\lambda = 1

Nesse caso, temos

RM(1)=∑j=1nWtj(Wtj−Wtj−1). R_M(1) = \sum_{j=1}^{n} W_{t_j} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}).

Escrevendo

Wtj=Wtj−1+Wtj−Wtj−1, W_{t_j} = W_{t_{j-1}} + W_{t_j} - W_{t_{j-1}},

vemos que

RM(1)=RM(0)+∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2. R_M(1) = R_M(0) + \sum_{j=1}^{n} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2.

Acabamos de ver que

RM(0)→12WT2−12T R_M(0) \rightarrow \frac{1}{2}W_T^2 - \frac{1}{2}T

e que

∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2→T. \sum_{j=1}^{n} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2 \rightarrow T.

Portanto,

RM(1)→12WT2+12T. R_M(1) \rightarrow \frac{1}{2}W_T^2 + \frac{1}{2}T.

Aqui já vemos que o limite depende de λ.\lambda.

Caso geral 0≤λ≤10 \leq \lambda \leq 1

Vamos considerar, agora, o caso geral RM(λ).R_M(\lambda). Somando e subtraindo Wtj−1W_{t_{j-1}} no primeiro termo e, em seguida, somando e subtraindo WθjλW_{\theta_j^\lambda} no segundo termo, obtemos

RM(λ)=∑j=1nWθjλ(Wtj−Wtj−1)=∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1)+∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)(Wtj−Wtj−1)=∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1)+∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)(Wtj−Wθjλ+Wθjλ−Wtj−1)=∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1)+∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)(Wtj−Wθjλ)+∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)(Wθjλ−Wtj−1) \begin{align*} R_M(\lambda) & = \sum_{j=1}^{n} W_{\theta_j^\lambda} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \\ & = \sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) + \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \\ & = \sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) + \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})(W_{t_j} - W_{\theta_j^\lambda} + W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}}) \\ & = \sum_{j=1}^{n} W_{t_{j-1}} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) + \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})(W_{t_j} - W_{\theta_j^\lambda}) + \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})(W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}}) \end{align*}

O primeiro termo é RM(0),R_M(0), de modo que podemos escrever

RM(λ)=RM(0)+AM(λ)+BM(λ), R_M(\lambda) = R_M(0) + A_M(\lambda) + B_M(\lambda),

onde

AM(λ)=∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)(Wtj−Wθjλ),BM(λ)=∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)(Wθjλ−Wtj−1). A_M(\lambda) = \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})(W_{t_j} - W_{\theta_j^\lambda}), \qquad B_M(\lambda) = \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})(W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}}).

Já sabemos que

RM(0)→WT2−T2, R_M(0) \rightarrow \frac{W_T}{2} - \frac{T}{2},

em probabilidade. Quanto aos outros termos, é possível mostrar que

AM(λ)→λT,BM(λ)→0, A_M(\lambda) \rightarrow \lambda T, \qquad B_M(\lambda) \rightarrow 0,

em probabilidade. Para isso, basta mostrar que

E[AM(λ)]→λT,Var⁡(AM(λ))→0, \mathbb{E}[A_M(\lambda)] \rightarrow \lambda T, \qquad \operatorname{Var}(A_M(\lambda)) \rightarrow 0,

e

E[BM(λ)]→0,Var⁡(BM(λ))→0. \mathbb{E}[B_M(\lambda)] \rightarrow 0, \qquad \operatorname{Var}(B_M(\lambda)) \rightarrow 0.

Essas demonstrações são semelhantes à de que

∑j=1n(Wtj−Wtj−1)2→T. \sum_{j=1}^{n} (W_{t_j} - W_{t_{j-1}})^2 \rightarrow T.

Deixamos os detalhes a cargo do leitor.

Como resultado, obtemos que

RM(λ)→12WT2+(λ−12)T, R_M(\lambda) \rightarrow \frac{1}{2}W_T^2 + \left(\lambda - \frac{1}{2}\right)T,

em probabilidade.

Considerações finais

No caso mais geral, ao considerarmos um integrando da forma g(t,Xt,Yt)g(t, X_t, Y_t) em relação a um processo {Yt}t,\{Y_t\}_t, a escolha λ=0\lambda = 0 nos levará à integral de Itô. Nesse caso, temos, como obtido acima,

∫0TWt dWt=12WT−12T. \int_0^T W_t \;\mathrm{d}W_t = \frac{1}{2}W_T - \frac{1}{2}T.

Observe que isso não coincide com o resultado pela definição via dualidade, vista em na Seção 6.3. Integrais via dualidade. A definição via dualidade coincide com a escolha λ=1/2,\lambda = 1/2, que nos levará à integral de Stratonovich. Para evitar confusões, denotamos essa integral de forma diferente e essa, sim, coincide com a definição via dualidade, nos casos em que aquela está definida:

∫0TWt∘dWt=12WT. \int_0^T W_t \circ\mathrm{d}W_t = \frac{1}{2}W_T.

Exercícios

  1. No caso geral 0≤λ≤1,0\leq \lambda \leq 1, mostre que, ao refinarmos a malha, os seguintes limites valem em probabilidade:

∑j=1n(Wθjλ−Wtj−1)2→λT∑j=1n(Wtj−Wθjλ)(Wθjλ−Wtj−1)→0. \begin{align*} \sum_{j=1}^{n} (W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}})^2 & \rightarrow \lambda T\\ \sum_{j=1}^{n} (W_{t_j} - W_{\theta_j^\lambda})(W_{\theta_j^\lambda} - W_{t_{j-1}}) & \rightarrow 0. \end{align*}
  1. Pensando na integral ∫0Tt dWt,\int_0^T t \;\mathrm{d}W_t, mostre que

∫0Tt dWt=lim⁡∥M∥→0∑j=1ntj−1(Wtj−Wtj−1)→TWT−∫0TWt dt \int_0^T t\;\mathrm{d}W_t = \lim_{\|M\|\rightarrow 0} \sum_{j=1}^n t_{j-1}(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) \rightarrow TW_T - \int_0^T W_t \;\mathrm{d}t

(dica: distribua tj−1(Wtj−Wtj−1)=tj−1Wtj−tj−1Wtj−1t_{j-1}(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) = t_{j-1}W_{t_j} - t_{j-1}W_{t_{j-1}} e mude o índice do segundo somatório), de modo que essa definição via limite coincide com a definição via dualidade,

∫0Tg(t) dWt=g(T)WT−∫0Tg′(t)Wt dt. \int_0^T g(t) \;\mathrm{d}W_t = g(T)W_T - \int_0^T g'(t)W_t\;\mathrm{d}t.
  1. Mais geralmente, mostre, diretamente via limite de somas de Riemann-Stieltjes, que, para g=g(t)g=g(t) de variação limitada,

∫0Tg(t) dWt=lim⁡∥M∥→0∑j=1ng(tj−1)(Wtj−Wtj−1)=g(T)WT−∫0TWt dg(t). \int_0^T g(t) \;\mathrm{d}W_t = \lim_{\|M\|\rightarrow 0} \sum_{j=1}^n g(t_{j-1})(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) = g(T)W_T - \int_0^T W_t\;\mathrm{d}g(t).
  1. Deduza, usando tanto a fórmula acima, quanto as somas de Riemann-Stieljes que

∫0Tt dWt∼N(0,T33). \int_0^T t\;\mathrm{d}W_t \sim \mathcal{N}\left(0, \frac{T^3}{3}\right).
  1. Usando a aproximação

∫0TWt dWt≈∑j=1nWtj−1(Wtj−Wtj−1) \int_0^T W_t\;\mathrm{d}W_t \approx \sum_{j=1}^n W_{t_{j-1}}(W_{t_j} - W_{t_{j-1}})

para calcular a integral para um certo número mm de amostras, em uma malha bem fina (por exemplo, m=100,m = 100, n=100,n = 100, T=1,T = 1, tj=jT/n,t_j = jT/n, Wtj(ωi),W_{t_j}(\omega_i), i=1,…,m,i = 1, \ldots, m,), faça um histograma dessas aproximações e compare com o histograma de

WT22−T2 \frac{W_T^2}{2} - \frac{T}{2}

e com a função densidade de probabilidade de

−T2+12Γ(12,2T), -\frac{T}{2} + \frac{1}{2}\Gamma\left(\frac{1}{2}, 2T\right),

onde Γ=Γ(k,θ)\Gamma = \Gamma(k, \theta) é a distribuição Gamma com parâmetros de forma kk e de escala θ.\theta.

(Lembrando que se Z∼N(0,σ2),Z \sim \mathcal{N}(0, \sigma^2), então Z2∼σ2χ12∼Γ(1/2,2σ2),Z^2 \sim \sigma^2 \chi_1^2 \sim \Gamma(1/2, 2\sigma^2), onde χk2=∑i=1kZk\chi_k^2 = \sum_{i=1}^k Z_k é a distribuição χ\chi-quadrado, definida com normais Zk∼N(0,1)Z_k\sim \mathcal{N}(0, 1) independentes.)

  1. Use a fórmula

b2(a−b)=13(a3−b3)−b(a−b)2−13(b−a)3, b^2(a - b) = \frac{1}{3}(a^3 - b^3) - b(a - b)^2 - \frac{1}{3}(b - a)^3,

para obter o limite

∫0TWt2 dWt=lim⁡∥M∥→0∑j=1nWtj−12(Wtj−Wtj−1)=WT33−∫0TWt dt. \int_0^T W_t^2\;\mathrm{d}W_t = \lim_{\|M\|\rightarrow 0} \sum_{j=1}^n W_{t_{j-1}}^2(W_{t_j} - W_{t_{j-1}}) = \frac{W_T^3}{3} - \int_0^T W_t\;\mathrm{d}t.
  1. Deduza, usando as somas de Riemann-Stieltjes, que vale o caso particular da isometria de Itô

E[(∫0Tg(t) dWt)2]=∫0tg(t)2 dt. \mathbb{E}\left[\left(\int_0^T g(t)\;\mathrm{d}W_t\right)^2\right] = \int_0^t g(t)^2 \;\mathrm{d}t.
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