9.1. Equação do transporte para equações diferenciais ordinárias

Considere uma equação diferencial determinística

dxdt=f(t,x). \frac{\mathrm{d}x}{\mathrm{d}t} = f(t, x).

Suponha que haja uma incerteza em relação à condição inicial. Isso nos dá a condição inicial como uma variável aleatória X0.X_0. Nesse caso, para cada realização X0(ω),X_0(\omega), temos uma solução tXt(ω)t \mapsto X_t(\omega) da equação diferencial ordinária aleatória

{dXtdt=f(t,Xt),Xt=0=X0. \begin{cases} \displaystyle \frac{\mathrm{d}X_t}{\mathrm{d}t} = f(t, X_t), \\ \left. X \right|_{t = 0} = X_0. \end{cases}

Suponhamos, para todos os efeitos, que essas soluções estejam definidas pelo menos em um intervalo de tempo [0,T].[0, T]. Isso nos leva a um processo {Xt}t[0,T].\{X_t\}_{t\in [0, T]}.

Suponhamos, mais ainda, que cada XtX_t tenha uma função densidade de probabilidade p(t,x)p(t, x) bem definida. A questão que queremos investigar é sobre a evolução dessa função. Temos, para uma "função teste" Φ\Phi qualquer,

E[Φ]=RΦ(Xt(ω)) dP(ω)=RΦ(x)p(t,x) dx. \mathbb{E}[\Phi] = \int_\mathbb{R} \Phi(X_t(\omega))\;\mathrm{d}\mathbb{P}(\omega) = \int_\mathbb{R} \Phi(x)p(t, x) \;\mathrm{d}x.

Derivando em relação ao tempo, obtemos

ddtE[Φ]=ddtRΦ(x)p(t,x) dx=RΦ(x)pt(t,x) dx. \frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t} \mathbb{E}[\Phi] = \frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t} \int_\mathbb{R} \Phi(x)p(t, x) \;\mathrm{d}x = \int_\mathbb{R} \Phi(x)\frac{\partial p}{\partial t}(t, x) \;\mathrm{d}x.

Por outro lado, também temos

ddtE[Φ]=RΦ(Xt(ω))ddtXt(ω) dP(ω)=RΦ(Xt(ω))f(t,Xt(ω)) dP(ω)=RΦ(x)f(t,x)p(t,x) dx. \frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t} \mathbb{E}[\Phi] = \int_\mathbb{R} \Phi'(X_t(\omega))\frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t}X_t(\omega)\;\mathrm{d}\mathbb{P}(\omega) = \int_\mathbb{R} \Phi'(X_t(\omega))f(t, X_t(\omega))\;\mathrm{d}\mathbb{P}(\omega) = \int_\mathbb{R} \Phi'(x)f(t, x) p(t, x)\;\mathrm{d}x.

Integrando por partes,

ddtE[Φ]=RΦ(x)x(f(t,x)p(t,x)) dx. \frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d}t} \mathbb{E}[\Phi] = - \int_\mathbb{R} \Phi(x)\frac{\partial}{\partial x}\left(f(t, x) p(t, x)\right)\;\mathrm{d}x.

Igualando as duas identidades, temos

RΦ(x)pt(t,x) dx=RΦ(x)x(f(t,x)p(t,x)) dx. \int_\mathbb{R} \Phi(x)\frac{\partial p}{\partial t}(t, x) \;\mathrm{d}x = - \int_\mathbb{R} \Phi(x)\frac{\partial}{\partial x}\left(f(t, x) p(t, x)\right)\;\mathrm{d}x.

Como isso é válido para qualquer Φ,\Phi, obtemos a equação

pt(t,x)+x(f(t,x)p(t,x))=0, \frac{\partial p}{\partial t}(t, x) + \frac{\partial}{\partial x}\left(f(t, x) p(t, x)\right) = 0,

para a evolução da função densidade de probabilidade p(t,x).p(t, x).

No caso de uma equação autônoma

dxdt=f(x), \frac{\mathrm{d}x}{\mathrm{d}t} = f(x),

obtemos

pt(t,x)+x(f(x)p(t,x))=0. \frac{\partial p}{\partial t}(t, x) + \frac{\partial}{\partial x}\left(f(x) p(t, x)\right) = 0.

Densidades estacionárias, i.e. p(t,x)=p(x),p(t, x) = p(x), podem ser obtidas através da equação

x(f(x)p(x))=0, \frac{\partial}{\partial x}\left(f(x) p(x)\right) = 0,

ou seja

f(x)p(x)=constante, f(x)p(x) = \textrm{constante},

lembrando que pp deve ser uma função densidade de probabilidade, ou seja,

p(x)0,p(x);dx=1. p(x) \geq 0, \quad \int_{-\infty}^\infty p(x);\mathrm{d}x = 1.

Por exemplo, para a equação

dxdt=x, \frac{\mathrm{d}x}{\mathrm{d}t} = - x,

a única solução possível é a delta de Dirac com suporte na origem. Tecnicamente, isso não nos dá uma densidade de probabilidade. Mas isso pode ser obtido, de maneira mais rigorosa, como limite, quando t,t \mapsto \infty, das soluções de

pt(t,x)x(xp(t,x))=0, \frac{\partial p}{\partial t}(t, x) - \frac{\partial}{\partial x}\left(x p(t, x)\right) = 0,

com uma dada condição inicial p(0,x)=p0(x).p(0, x) = p_0(x). Procurando uma solução auto-similar

p(t,x)=a(t)p0(b(t)x), p(t, x) = a(t) p_0(b(t)x),

vemos que a(t)=b(t)=et,a(t) = b(t) = e^{t}, ou seja,

p(t,x)=etp0(etx). p(t, x) = e^{t}p_0(e^{t}x).

Observe que

p(t,x) dx=etp0(etx) dx=p0(x) dx=1. \int_{-\infty}^\infty p(t, x) \;\mathrm{d}x = \int_{-\infty}^\infty e^{t}p_0(e^{t}x) \;\mathrm{d}x = \int_{-\infty}^\infty p_0(x) \;\mathrm{d}x = 1.

Além disso, para um função g=g(x)g=g(x) contínua e limitada, temos

p(t,x)g(x) dx=p(t,x)g(0) dx+p(t,x)(g(x)g(0)) dx=g(0)+p(t,x)(g(x)g(0)) dx. \begin{align*} \int_{-\infty}^\infty p(t, x) g(x) \;\mathrm{d}x & = \int_{-\infty}^\infty p(t, x) g(0) \;\mathrm{d}x + \int_{-\infty}^\infty p(t, x) (g(x) - g(0)) \;\mathrm{d}x \\ & = g(0) + \int_{-\infty}^\infty p(t, x) (g(x)-g(0)) \;\mathrm{d}x. \end{align*}

Pela continuidade da função g=g(x),g=g(x), dado ε>0,\varepsilon > 0, existe δ>0\delta > 0 tal que g(x)g(0)ε,|g(x) - g(0)| \leq \varepsilon, para xδ.|x|\leq \delta. Além disso, g=g(x)g=g(x) é limitada, digamos g(x)C.|g(x)| \leq C. Assim,

p(t,x)(g(x)g(0)) dxxδp(t,x)g(x)g(0) dx+xδp(t,x)g(x)g(0) dxεxδp(t,x) dx+2Cxδp(t,x) dxε+2Cxδetp0(etx) dx=ε+2Cxetδp0(x) dx. \begin{align*} \left|\int_{-\infty}^\infty p(t, x) (g(x)-g(0)) \;\mathrm{d}x\right| & \leq \int_{|x| \leq \delta} p(t, x) |g(x)-g(0)| \;\mathrm{d}x + \int_{|x| \geq \delta} p(t, x) |g(x)-g(0)| \;\mathrm{d}x \\ & \leq \varepsilon \int_{|x| \leq \delta} p(t, x) \;\mathrm{d}x + 2C \int_{|x| \geq \delta} p(t, x) \;\mathrm{d}x \\ & \leq \varepsilon + 2C\int_{|x| \geq \delta} e^{t}p_0(e^{t}x) \;\mathrm{d}x \\ & = \varepsilon + 2C\int_{|x| \geq e^t\delta} p_0(x) \;\mathrm{d}x. \end{align*}

Quando t0,t\rightarrow 0, a integral acima vai para zero. Além disso, ε>0\varepsilon > 0 é arbitrário. Logo,

limtp(t,x)(g(x)g(0)) dx=0. \lim_{t\rightarrow \infty} \int_{-\infty}^\infty p(t, x) (g(x)-g(0)) \;\mathrm{d}x = 0.

Portanto,

p(t,x)g(x) dxg(0), \int_{-\infty}^\infty p(t, x) g(x) \;\mathrm{d}x \rightarrow g(0),

mostrando que a solução convergence para a delta de Dirac no sentido das distribuições, i.e.

p(t,x)wδ0. p(t, x) \stackrel{w}{\rightharpoonup} \delta_0.

Exercícios

  1. Verifique que, no caso multi-dimensional, em que xRd\mathbf{x}\in\mathbb{R}^d e f:RdRd,f:\mathbb{R}^d \rightarrow \mathbb{R}^d, com dNd\in\mathbb{N} arbitrário, a equação de transporte para a densidade p=p(t,x)p=p(t,\mathbf{x}) da solução de dXt/dt=f(t,Xt),\mathrm{d}\mathbf{X}_t/\mathrm{d}t = f(t, \mathbf{X}_t), com uma variável aleatória inicial X0,\mathbf{X}_0, tem a forma

pt(t,x)+(f(t,x)p(t,x))=0. \frac{\partial p}{\partial t}(t, \mathbf{x}) + \nabla \cdot (f(t, \mathbf{x})p(t, \mathbf{x})) = 0.
  1. Usando a fórmula acima, encontre a=a(t)a=a(t) e b=b(t)b=b(t) tais que p(t,x)=a(t)q(b(t)x)p(t, \mathbf{x}) = a(t) q(b(t) \mathbf{x}) seja uma solução (dita auto-semelhante) da equação de Fokker-Planck acima, no caso da equação linear dXt/dt=Xt\mathrm{d}\mathbf{X}_t/\mathrm{d}t = -\mathbf{X}_t em várias variáveis xRd,\mathbf{x}\in\mathbb{R}^d, com dN,d\in\mathbb{N}, com uma condição inicial X0X_0 com densidade de probabilidade q=q(x).q=q(\mathbf{x}).

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