1.5. Do passeio aleatório ao movimento Browniano

Uma outra maneira de modelar o movimento Browniano é através de um processo conhecido como passeio aleatório, no caso em que consideramos escalas de tempo e de comprimento para os passos temporais e espaciais e quando tomamos os limites quando essas escalas vão para zero de forma apropriada. Louis Bachelier, cinco anos antes do ano miraculoso de Einstein, utilizou um processo que é essencialmente um passeio aleatório, em sua tese L. Bachelier, Théorie de la spéculation, Annales scientifiques de l'École Normale Supérieure, Serie 3, Volume 17 (1900), pp. 21-86, para justificar a forma da densidade de probabilidades de ações no mercado financeiro.

Vamos pensar em um passeio aleatório unidimensional, em um conjunto discreto Z,\ell \mathbb{Z}, onde >0\ell > 0 é uma escala de comprimento. Usamos, também, uma escala de tempo τ>0.\tau > 0. Assumimos que, a cada passo de tempo τ,\tau, uma partícula pode se movimentar de uma distância exatamente ,\ell, para a direita ou para a esquerda, com probabilidade 1/21/2 em cada sentido. A motivação é que, a cada passo de tempo, a partícula será bombardeada mais de um lado do que de outro, de maneira aleatória e independente. É uma situação bastante idealizada, porque não leva em consideração possíveis variações relativas nas quantidades de bombardeamentos e no tamanho do passo, nem do momento adquirido pela partícula.

Denotamos, então, por pn(m)p_n(m) a probabilidade da partícula estar na posição x=m,x = m\ell, no instante t=nτ.t = n\tau. Naturalmente, 0pn(m)1,0 \leq p_n(m) \leq 1, com mZpn(m)=1,\sum_{m\in \mathbb{Z}} p_n(m) = 1, para todo n=0,1,.n = 0, 1, \ldots.

Inicialmente, em t=0,t = 0, consideramos que a partícula está na origem, de modo que p0(0)=1p_0(0) = 1 e p0(m)=0,p_0(m) = 0, para m0.m\ne 0. Vamos escrever isso, simetricamente, na forma

p0=(,0,0,1,0,0,). p_0 = (\ldots, 0, 0, 1, 0, 0, \ldots).

Após o primeiro passo, temos p1(±1)=1/2p_1(\pm 1) = 1/2 e o p1(m)=0p_1(m) = 0 para m±1.m \neq \pm 1. Ou seja,

p1=(,0,1/2,0,1/2,0,). p_1 = (\ldots, 0, 1/2, 0, 1/2, 0, \ldots).

No instante seguinte,

p2=(,0,14,0,12,0,14,0,), p_2 = \left(\ldots, 0, \frac{1}{4}, 0, \frac{1}{2}, 0, \frac{1}{4}, 0, \ldots \right),

e assim por diante:

p3=(,0,18,0,38,0,38,0,18,0,), p_3 = \left(\ldots, 0, \frac{1}{8}, 0, \frac{3}{8}, 0, \frac{3}{8}, 0, \frac{1}{8}, 0, \ldots\right), p4=(,0,116,0,516,0,316,0,516,0,116,0,), p_4 = \left(\ldots, 0, \frac{1}{16}, 0, \frac{5}{16}, 0, \frac{3}{16}, 0, \frac{5}{16}, 0, \frac{1}{16}, 0, \ldots\right), \vdots

Podemos continuar e buscar um padrão para a sequência, mas podemos deduzir os valores de uma forma mais simples.

Para uma partícula chegar na posição x=m,x = \ell m, ela deve dar ii passos para a direita e jj passos para a esquerda, com ij=m.i - j = m. Para isso acontecer no passo n,n, devemos ter i+j=n.i + j = n. Logo, devemos ter i=(n+m)/2i = (n + m)/2 passos para a direita e j=(nm)/2j = (n - m)/2 passos para a esquerda. Cada passo ocorre com probabilidade 1/2.1/2. Assim, após nn passos, cada caminho ocorre com probabilidade 1/2n.1/2^n. Resta saber quantos caminhos existem até um determinado ponto x=m.x = \ell m.

Naturalmente, não há caminho caso m<nm < -n ou m>n.m > n. E há apenas um caminho para m=nm = -n e m=n.m = n. Mas pode haver vários caminhos ligando a outros pontos. Ou nenhum. De fato, se nn e mm tiverem paridades diferentes, então n+mn + m é ímpar e não tem como darmos i=(n+m)/2i = (n + m)/2 passos para a direita, nem j=(nm)/2j = (n - m)/2 para a esquerda. Resta, agora, saber o número de caminhos possíveis quando nn e mm têm a mesma paridade e m<n.|m| < n.

Para ver isso, vamos focar no fato de que, para chegarmos em x=mx = m\ell após nn passos, devemos dar (n+m)/2(n + m)/2 passos para a direita. Se, por exemplo, n=6n = 6 e m=2,m = 2, devemos dar (n+m)/2=4(n + m)/2 = 4 passos para a direita, mas eles podem acontecer em quaisquer quatro dos seis momentos entre τ\tau e nτ.n\tau. Isso nos dá (n(n+m)/2)=(64)=15\left(\begin{matrix} n \\ (n + m)/2 \end{matrix}\right) = \left(\begin{matrix} 6 \\ 4 \end{matrix}\right) = 15 possibilidades de caminhos, de um total de 26.2^6. Ou seja, p6(2)=15/64.p_6(2) = 15 / 64. Mais geralmente, temos

pn(m)=12nn!(n+m2)!(nm2)!. p_n(m) = \frac{1}{2^n}\frac{n!}{\left(\frac{n + m}{2}\right)!\left(\frac{n-m}{2}\right)!}.

Podemos reconhecer isso como a distribuição binomial

pn(m)=(nk)pk(1p)nk,k=k(n,m)=n+m2,p=12, p_n(m) = \left(\begin{matrix} n \\ k \end{matrix}\right) p^k (1-p)^{n-k}, \qquad k = k(n, m) = \frac{n + m}{2}, \quad p = \frac{1}{2},

nos dando a probabilidade de (n+m)/2(n+m)/2 sucessos em nn sorteios de Bernoulli, com probabilidade p=1p=1/2p = 1 - p = 1/2 de cada realização, com as realizações sendo os passos \ell e .-\ell.

Denotando por XnX_n a posição da partícula no passo nZ={0,1,2,},n \in \mathbb{Z}^* = \{0, 1, 2, \ldots\}, temos que {Xn}nN\{X_n\}_{n \in \mathbb{N}} é um processo estocástico discreto, com cada passo ΔX=Xn+1XnBernoulli(±,1/2),\Delta X = X_{n + 1} - X_n \sim \mathrm{Bernoulli}(\pm \ell, 1/2), representando o teste de Bernoulli com valores possíveis ±.\pm \ell. Temos, ainda, que cada XnX_n é uma distribuição binomial com possíveis valores n,,n,-n\ell, \ldots, n\ell, que podemos denotar por

XnB({n,,n},1/2), X_n \sim B(\{-n\ell, \ldots, n\ell\}, 1/2),

com X0=0X_0 = 0 quase sempre, ou seja,

X0δ0. X_0 \sim \delta_0.

Limite contínuo

Assintoticamente, temos, pela fórmula de Stirling, que k!2πk(k/e)k,k! \simeq \sqrt{2\pi k} (k / e)^k, quando k.k \rightarrow \infty. Mais precisamente, vale a desigualdade

2πk(ke)ke112k+1<k!<2πk(ke)ke112k,kN. \sqrt{2\pi k} \left( \frac{k}{e} \right)^k e^{\frac{1}{12k+1}} < k! < \sqrt{2\pi k} \left( \frac{k}{e} \right)^k e^{\frac{1}{12k}}, \quad \forall k\in\mathbb{N}.

Por exemplo, para k=8,k = 8, temos e1/12k1.01047,e^{1/12k} \approx 1.01047, de modo que o erro relativo já é da ordem de 1%, diminuindo rapidamente conforme kk aumenta.

A ideia, então, é tomar o limite quando n.n \rightarrow \infty. Por sua vez, mm pode ou não ir para infinito também, mas vamos manter sempre mn.|m \ll n. Isso porque, assumindo, n1n \gg 1 e mn,|m| \ll n, temos também

n±m1. n \pm m \gg 1.

Com isso,

pn(m)12n2πn(n/e)nπ(n+m)((n+m)/2e)(n+m)/2π(nm)((nm)/2e)(nm)/2. p_n(m) \simeq \frac{1}{2^n}\frac{\sqrt{2\pi n} (n / e)^n}{\sqrt{\pi (n + m)} ((n + m) / 2e)^{(n + m)/2}\sqrt{\pi (n - m)} ((n - m) / 2e)^{(n - m)/2}}.

Lembrando que isso é quando n+mn + m é par, caso contrário pn(m)=0.p_n(m) = 0. Simplificando, obtemos

pn(m)2nπ(n2m2)nn(n+m)(n+m)/2(nm)(nm)/2. p_n(m) \simeq \sqrt{\frac{2n}{\pi(n^2 - m^2)}}\frac{n^n}{(n + m)^{(n + m)/2}(n - m)^{(n - m)/2}}.

Decompondo a potência do numerador em nn=n(n+m)/2n(nm)/2,n^n = n^{(n+m)/2}n^{(n-m)/2}, obtemos

pn(m)2nπ(n2m2)(nn+m)(n+m)/2(nnm)(nm)/2. p_n(m) \simeq \sqrt{\frac{2n}{\pi(n^2 - m^2)}}\left(\frac{n}{n+m}\right)^{(n + m)/2}\left(\frac{n}{n-m}\right)^{(n - m)/2}.

Invertendo a fração, temos

pn(m)2nπ(n2m2)(n+mn)(n+m)/2(nmn)(nm)/2. p_n(m) \simeq \sqrt{\frac{2n}{\pi(n^2 - m^2)}}\left(\frac{n+m}{n}\right)^{-(n + m)/2}\left(\frac{n-m}{n}\right)^{-(n - m)/2}.

Observe que

(n+mn)(n+m)/2(nmn)=en+m2ln(1+mn)nm2ln(1mn). \left(\frac{n+m}{n}\right)^{-(n + m)/2}\left(\frac{n-m}{n}\right) = e^{\displaystyle -\frac{n + m}{2}\ln\left(1 + \frac{m}{n}\right) - \frac{n - m}{2}\ln\left(1 - \frac{m}{n}\right)}.

Sendo mn,|m| \ll n, obtemos, pela expansão ln(1+x)=0+xx2/2+O(x3)xx2/2,\ln(1 + x) = 0 + x - x^2/2 + \mathcal{O}(x^3) \approx x - x^2/2,

(n+mn)(n+m)/2(nmn)en+m2(mn+12m2n2)nm2(mn+12m2n2)=em22n. \left(\frac{n+m}{n}\right)^{-(n + m)/2}\left(\frac{n-m}{n}\right) \approx e^{\displaystyle -\frac{n + m}{2}\left(\frac{m}{n} + \frac{1}{2}\frac{m^2}{n^2}\right) - \frac{n - m}{2}\left(-\frac{m}{n} + \frac{1}{2}\frac{m^2}{n^2}\right)} = e^{\displaystyle -\frac{m^2}{2n}}.

Portanto,

pn(m)2nπ(n2m2)em22n. p_n(m) \simeq \sqrt{\frac{2n}{\pi(n^2 - m^2)}} e^{\displaystyle -\frac{m^2}{2n}}.

Por outro lado, usando novamente que nm,n \gg |m|, temos m/n1,|m|/n \ll 1, de modo que

n2m2=n2(1m2n2)n2. n^2 - m^2 = n^2\left(1 - \frac{m^2}{n^2}\right) \approx n^2.

Logo,

2nπ(n2m2)2πn. \sqrt{\frac{2n}{\pi(n^2 - m^2)}} \approx \sqrt{\frac{2}{\pi n}}.

Portanto, para n1n \gg 1 e mn,|m| \ll n, com n+mn+m par, obtemos

pn(m)2πnem22n. p_n(m) \approx \sqrt{\frac{2}{\pi n}}e^{\displaystyle -\frac{m^2}{2n}}.

Passando para o contínuo, com tnτt \approx n \tau e xmx \approx m \ell e interpretando pn(m)p_n(m) como a probabilidade da partícula estar no intervalo (m1/2)x(m+1/2),(m-1/2)\ell \leq x \leq (m+1/2)\ell, no instante tt e sendo p(t,x)p(t, x) a densidade de probabilidades no instante t,t, temos

(m1/2)(m+1/2)p(t,x) dx=pn(m). \int_{(m-1/2)\ell}^{(m+1/2)\ell} p(t, x)\;\mathrm{d}x = p_n(m).

Mas pn(m)p_n(m) pode ser nulo quando n+mn+m é ímpar, ou seja,

(m1/2)(m+1/2)p(t,x) dx=pn(m){=0,n+m ıˊmpar,2πnem22n,n+m par. \int_{(m-1/2)\ell}^{(m+1/2)\ell} p(t, x)\;\mathrm{d}x = p_n(m) \begin{cases} = 0, & n + m \textrm{ ímpar,} \\ \approx \sqrt{\frac{2}{\pi n}}e^{\displaystyle -\frac{m^2}{2n}}, & n + m \textrm{ par.} \end{cases}

Para garantir que obtemos a probabilidade estimada acima, podemos integrar a densidade no intervalo "dobrado" (m1)x(m+1).(m-1)\ell \leq x \leq (m+1)\ell. Assim, obtemos, aproximadamente,

2p(t,x)(m1)(m+1)p(t,x) dx=pn(m)2πnem22n=2τπteτx22t2, 2\ell p(t, x) \approx \int_{(m-1)\ell}^{(m+1)\ell} p(t, x)\;\mathrm{d}x = p_n(m) \approx \sqrt{\frac{2}{\pi n}}e^{-\frac{m^2}{2n}} = \sqrt{\frac{2\tau}{\pi t}}e^{-\frac{\tau x^2}{2t\ell^2}},

pelo menos para n1,n \gg 1, mn,|m| \ll n, ou seja, em particular, para

xtτ. \frac{|x|}{\ell} \ll \frac{t}{\tau}.

Logo, nessa região,

p(t,x)τ22πteτx22t2=14πatex24at, p(t, x) \approx \sqrt{\frac{\tau}{2\ell^2 \pi t}} e^{-\frac{\tau x^2}{2t\ell^2}} = \frac{1}{\sqrt{4\pi a t}} e^{-\frac{x^2}{4a t}},

onde fizemos

a=22τ. a = \frac{\ell^2}{2\tau}.

Obtivemos, assim, que, para cada t,t, a função xp(t,x)x \mapsto p(t, x) é aproximadamente uma Gaussiana com variância σ2=2at.\sigma^2 = 2at.

Observe que podemos pensar esse processo limite como tomando ,τ0\ell, \tau \rightarrow 0 mas mantendo a relação a=2/2τa = \ell^2/2\tau fixa. Ou seja, τ\tau converge para zero muito mais rápido do que .\ell. Em particular, fixados xmx \approx m\ell e tnτ,t \approx n\tau, e fazendo ,τ\ell, \tau irem para zero, com a=2/2τa = \ell^2/2\tau fixo, vemos que m,n,m, n\rightarrow \infty, com nn crescendo muito mais rápido que m,m, garantindo a condição de que mn.|m| \ll n. Assim, a aproximação acima para pn(m)/2p_n(m)/2\ell converge, de fato, para p(t,x).p(t, x).

A condição em t,xt, x pode ser escrita como

xτt=a2t. \ell \ll |x| \ll \frac{\ell}{\tau} t = \frac{a}{2\ell} t.

À medida em que ,τ0\ell, \tau \rightarrow 0 com aa fixo, temos também a/2,a/2\ell \rightarrow \infty, de modo que, no limite, a aproximação vale para todo xRx\in\mathbb{R} e para t>0t > 0 arbitrário. Ou seja, obtemos uma convergência em quase toda a parte e deduzimos que a aproximação normal acima vale em todo (t,x)(0,)×R.(t, x) \in (0, \infty) \times \mathbb{R}.

Finalmente, observe a semelhança entre a definição de aa acima e de DD no modelo de Einstein, onde, no primeiro caso, o passo é fixo, enquanto que, no segundo caso, o passo é uma variável aleatória:

a=22τ,D=E(2)2τ. a = \frac{\ell^2}{2\tau}, \qquad D = \frac{\mathbb{E}(\ell^2)}{2\tau}.

De uma forma mais rigorosa, podemos definir, para cada τ,>0,\tau, \ell > 0, as distribuições constantes por parte

p~τ,(t,x)=pm(n)2=1212nn!(n+m2)!(nm2)!,(m1)x<(m+1)x, nτt<(n+1)τ, nZ, mZ, n+m par, \tilde p_{\tau, \ell}(t, x) = \frac{p_m(n)}{2\ell} = \frac{1}{2\ell}\frac{1}{2^n}\frac{n!}{\left(\frac{n + m}{2}\right)!\left(\frac{n-m}{2}\right)!}, \quad (m-1)\ell \leq x < (m+1)x, \;n\tau \leq t < (n+1)\tau, \;n\in \mathbb{Z}^*, \;m\in \mathbb{Z}, \;n+m \textrm{ par,}

ou as suas versões pn(t,x)p_n(t, x) lineares por parte. Assim, podemos mostrar que

limτ,0,τ/22=apτ,(t,x)=p(t,x), \lim_{\tau, \ell \rightarrow 0, \tau/2\ell^2 = a} p_{\tau, \ell}(t, x) = p(t, x),

uniformemente em subconjuntos compactos de (0,)×R.(0, \infty) \times \mathbb{R}.

Processo limite do passeio aleatório

Pensando nesse limite contínuo, e abusando da notação, já que já definimos Xn,X_n, podemos escrever XtX_t como a variável aleatória indicando a posição da partícula no instante tnτ,t \sim n\tau, associado à distribuição limite p(t,x).p(t, x).

Equação de difusão

Podemos reconhecer, pela fórmula acima, que a evolução, no tempo, da distribuição de probabilidades p(t,x)p(t, x) para a posição da partícula satisfaz a equação de difusão (e.g. equação do calor)

pt2=apx2, \frac{\partial p}{\partial t^2} = a\frac{\partial p}{\partial x^2},

onde aa representa o coeficiente de difusão (térmica, no caso do calor).

Distância média percorrida

Como no modelo de Einstein, sendo xp(t,x)x \mapsto p(t, x) uma Gaussiana com variância σ2=2at,\sigma^2 = 2at, a distância quadrática média percorrida pelas partículas, após um instante t,t, é exatamente esse desvio padrão:

E[Xt2]=(Rx2p(t,x) dx)1/2=σ=2at. \sqrt{\mathbb{E}[X_t^2]} = \left( \int_{\mathbb{R}} x^2 p(t, x) \;\mathrm{d}x \right)^{1/2} = \sigma = \sqrt{2 a t}.

Se, por outro lado, observarmos E(Xt),\mathbb{E}(|X_t|), obtemos uma distância da mesma ordem: E(Xt)=20xp(t,x) dx=σ2/π.\mathbb{E}(|X_t|) = 2\int_0^\infty x p(t, x) \;\mathrm{d}x = \sigma\sqrt{2/\pi}.

Incrementos

Em um instante t,t, a distribuição normal N(0,2at)\mathcal{N}(0, 2at) nos dá a probabilidade de encontrarmos a partícula em uma determinada posição (tendo ela partido de x=0x = 0 em t=0t = 0). Mas dada a posição da partícula no instante t,t, a posição dessa partícula em um instante t+Δt,t + \Delta t, com Δt>0\Delta t > 0 não é dada por N(0,2a(t+Δt))\mathcal{N}(0, 2a(t+\Delta t)) pura e simplesmente. Temos, na verdade, uma probabilidade condicionada.

Pensando, novamente, no passeio aleatório, podemos imaginar um novo processo iniciando-se em x=Xtx = X_t e caminhando para x±x \pm \ell no instante t+τt + \tau e para algum ponto entre xnx+mx+n,x - n\ell \leq x + m\ell \leq x + n\ell, em instantes t+nτ.t + n\tau. Assim, o incremento ΔX=Xt+ΔtXt\Delta X = X_{t + \Delta t} - X_t é dado, novamente, por um passeio aleatório, só que começando de XtX_t e durando um intervalo de tempo Δt.\Delta t. Ou seja, a lei de probabilidades para a posição Xt+ΔtX_{t + \Delta t} da partícula dado XtX_t é

Xt+ΔtN(Xt,2aΔt)=Xt+N(0,2aΔt). X_{t + \Delta t} \sim \mathcal{N}(X_t, 2a\Delta t) = X_t + \mathcal{N}(0, 2a\Delta t).

Ou seja, a lei de probabilidades do incremento é

ΔX=Xt+ΔtXtN(0,2aΔt). \Delta X = X_{t + \Delta t} - X_t \sim \mathcal{N}(0, 2a\Delta t).

Caminhos

Como no modelo de Einstein, podemos ter, no limite, caminhos se deslocando cada vez mais rápido. De fato, ao longo de nn passos de tempo τ\tau até um instante t,t, podemos ter exatos nn passos \ell no mesmo sentido, digamos até x=n,x = n\ell, de modo que a velocidade é x/t=/τ.x/t = \ell/\tau. Fazemos ,τ0,\ell, \tau \rightarrow 0, com a=2/2τa = \ell^2/2\tau constante, enquanto aumentamos nn e mm para chegarmos ao ponto mais longe possível x,x, no mesmo instante t.t. Assim, temos a velocidade v=x/t=/τ=2aτ/τ=2a/τ.v = x/t = \ell/\tau = \sqrt{2a\tau}/\tau = \sqrt{2a/\tau} \rightarrow \infty. Ou seja, não há como limitar a velocidade dos caminhos.

Porém, como feito no modelo de Einstein, é possível mostrar que, com probabilidade um, os caminhos são Hölder contínuos, com expoente arbitrariamente próximo de 1/2.

Diferenças finitas

Uma outra maneira de se trabalhar o limíte contínuo do passeio aleatório é via diferenças finitas. Pense em p(t,x)pn(m)p(t, x) \sim p_n(m) como uma função densidade de partículas, como se cada mNm\in \mathbb{N} representasse um sítio, com um certo número un(m)u_n(m) de partículas, cuja densidade é pn(m)=un(m)/U,p_n(m) = u_n(m) / U, onde UU é o número total de partículas. A cada passo de tempo, em média metade das partículas em um sítio mm se encaminha para o sítio m1m-1 e a outra metade, para o sítio m+1.m+1. Por um outro ponto de vista, todas as partículas de um determinado sítio vão para os sítios vizinhos e metade das partículas de cada um dos sítios vizinhos se encaminha para aquele sítio. Ou seja, o total un+1(m)u_{n+1}(m) de partículas no sítio m,m, no passo n+1,n+1, é inteiramente constituído pelas partículas advindas dos sítios vizinhos, de forma que

un+1(m)=12un(m1)+12un(m+1). u_{n+1}(m) = \frac{1}{2}u_n(m-1) + \frac{1}{2}u_n(m+1).

Subtraindo un(m)u_n(m) dos dois lados, multiplicando a equação resultante por 1/τ=2a/21/\tau = 2a/\ell^2 e dividindo-a por U,U, obtemos

pn+1(m)pn(m)τ=apn(m+1)2pn(m)+pn(m1)2 \frac{p_{n+1}(m) - p_n(m)}{\tau} = a\frac{p_n(m+1) - 2p_n(m) + p_n(m-1)}{\ell^2}

No limite quando τ,0,\tau, \ell \rightarrow 0, com a=2/2τa = \ell^2/2\tau constante e com xmx \sim m\ell e tnτ,t \sim n\tau, obtemos a equação em derivadas parciais

pt=a2px2. \frac{\partial p}{\partial t} = a\frac{\partial^2 p}{\partial x^2}.

Exercícios

  1. Considere um passeio aleatório em três dimensões, onde o espaço é Z3.\ell \mathbb{Z}^3. Cada passo pode ser em qualquer direção, com oito possíveis destinos, (±,±,±),(\pm \ell, \pm \ell, \pm \ell), cada um com probabilidade 1/23=1/8.1/2^3 = 1/8. Mostre que, no limite, a densidade de probabilidades p(t,x)p(t, \mathbf{x}) da posição da partícula é dada por

p(t,x)=1(4πat)3/2ex24Dt. p(t, \mathbf{x}) = \frac{1}{(4\pi a t)^{3/2}} e^{-\frac{|\mathbf{x}|^2}{4Dt}}.

onde x=(x,y,z),\mathbf{x} = (x, y, z), x=x2+y2+z2|\mathbf{x}| = \sqrt{x^2 + y^2 + z^2} e aa é como no caso unidimensional.

  1. Uma versão bidimensional pode ser feita com passos dados por (cosθ,sinθ),\ell(\cos\theta, \sin\theta), com >0\ell > 0 fixo indicando o tamanho do passo e θ\theta uma variável aleatória com probabilidade uniforme em [0,2π][0, 2\pi] indicando a direção do passo. Um passeio aleatório com nn passos nos leva a

(Xn,Yn)=i=1,,n(cosθi,sinθi). (X_n, Y_n) = \ell \sum_{i = 1, \ldots, n} (\cos\theta_i, \sin\theta_i).

onde θi\theta_i são nn realizações da variável ângulo. Usando que θ\theta segue uma distribuição uniforme, mostre que

E((Xn,Yn))=(0,0). \mathbb{E}((X_n, Y_n)) = (0, 0).

Mostre, ainda, usando também as relações cos2θ=(1+cos(2θ))/2\cos^2\theta = (1 + \cos(2\theta))/2 e sin2θ=(1cos(2θ))/2,\sin^2\theta = (1 - \cos(2\theta))/2, que

E(Xn2+Yn2)=n2=22τ2nτ=2atn, \mathbb{E}(X_n^2 + Y_n^2) = n \ell^2 = \frac{\ell^2}{2\tau} 2n\tau = 2 a t_n,

onde tn=nτt_n = n\tau e, como antes, a=2/2τa=\ell^2/2\tau. Ou seja, a distância média quadrática E[Xn2+Yn2]=2atn\sqrt{\mathbb{E}[X_n^2 + Y_n^2]} = \sqrt{2 a t_n} cresce de maneira proporcional à raiz quadrada do tempo decorrido.

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