8.1. Interpretação da equação

Neste capítulo, vamos considerar equações diferenciais estocásticas da forma

dXt=f(t,Xt)dt+g(t,Xt)dWt,t0, \mathrm{d}X_t = f(t, X_t)\mathrm{d}t + g(t, X_t)\mathrm{d}W_t, \qquad t \geq 0,

onde T>0,T > 0, {Wt}t0\{W_t\}_{t\geq 0} é um processo de Wiener e f:[0,T]×R×RRf:[0, T]\times \mathbb{R} \times\mathbb{R} \rightarrow \mathbb{R} e g:[0,T]×R×RR.g:[0, T]\times \mathbb{R} \times\mathbb{R} \rightarrow \mathbb{R}.

Junte-se à essa equação uma condição inicial

Xtt=0=X0, \left.X_t\right|_{t = 0} = X_0,

onde X0X_0 é uma variável aleatória real.

Significado da equação

Os termos dXt\mathrm{d}X_t e dWt\mathrm{d}W_t não têm significado por si só. A equação conforme escrita acima é uma maneira de se escrever a equação integral correspondente:

Xt=X0+0tf(s,Xs)ds+0tg(s,Xs)dWs. X_t = X_0 + \int_0^t f(s, X_s)\mathrm{d}s + \int_0^t g(s, X_s)\mathrm{d}W_s.

Sob condições apropriadas em f,f, gg e na solução Xt,X_t, a primeira integral é uma integral de Riemann ou de Lebesgue de um processo definido por Ht=f(t,Xt)H_t = f(t, X_t) e a segunda integral é uma integral de Itô de um processo definido por Gt=g(t,Xt),G_t = g(t, X_t), em relação ao processo {Wt}t0.\{W_t\}_{t\geq 0}. Buscamos condições que garantam a existência de um processo apropriado {Xt}t0\{X_t\}_{t \geq 0} que satisfaça essa equação integral.

Nomenclatura

O termo f=f(t,x)f = f(t, x) é chamado de drift e g=g(t,x),g = g(t, x), de difusão.

Uma notação comum é escrevê-los como μ\mu e σ.\sigma. Para ver a razão disso, considere o caso com coeficientes determinísticos e condição inicial nula:

dXt=μ(t)dt+σ(t)dWt,Xtt=0=0. \mathrm{d}X_t = \mu(t)\mathrm{d}t + \sigma(t)\mathrm{d}W_t, \quad \left. X_t \right|_{t = 0} = 0.

Essa equação é pra ser interpretada como a equação integral

Xt=0tμ(s)ds+0tσ(s)dWs. X_t = \int_0^t \mu(s)\mathrm{d}s + \int_0^t \sigma(s)\mathrm{d}W_s.

Já vimos que

E[0tσ(s)dWs]=0. \mathbb{E}\left[\int_0^t \sigma(s)\mathrm{d}W_s\right] = 0.

Assim, o valor esperado da solução é

E[Xt]=0tμ(s)ds. \mathbb{E}[X_t] = \int_0^t \mu(s)\mathrm{d}s.

Por sua vez, a variância é dada por

Var(Xt)=E[(XtE[Xt])2]=E[(0tσ(s)dWs)2]. \mathrm{Var}(X_t) = \mathbb{E}[(X_t - \mathbb{E}[X_t])^2] = \mathbb{E}\left[\left(\int_0^t \sigma(s)\mathrm{d}W_s\right)^2\right].

Usando a isometria de Itô e o fato de σ\sigma ser determinístico, isso nos dá

Var(Xt)=0tσ(s)2dWs. \mathrm{Var}(X_t) = \int_0^t \sigma(s)^2\mathrm{d}W_s.

Dessa forma, associamos μ\mu e σ\sigma diretamente ao valor esperado e ao desvio padrão, respectivamente, da solução {Xt}t0\{X_t\}_{t \geq 0} da equação.

Tipos de ruído

Uma distinção comum é se o termo g(t,x)g(t, x) de ruído depende ou não de x.x. Caso não dependa, dizemos que temos um ruído aditivo, ou seja, quando a equação tem a forma

dXt=f(t,Xt)dt+g(t)dWt. \mathrm{d}X_t = f(t, X_t)\mathrm{d}t + g(t)\mathrm{d}W_t.

Mais geralmente, quando g(t,x)g(t, x) depende explicitamente de x,x, dizemos que temo um ruído multiplicativo.

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