4.3. Processos em tempos contínuos

Vimos vários processos discretos que foram definidos por indução nos passos. Naturalmente, o mesmo não pode ser feito com tanta facilidade para processos contínuos. Vários processos contínuos aparecem naturalmente como soluções de equações diferenciais aleatórias ou de equações diferenciais estocásticas. Mas podemos exemplificar com alguns processos definidos mais diretamente, como veremos a seguir.

Vamos começar vendo alguns exemplos em que o processo pode ser construído explicitamente a partir de uma ou mais variáveis aleatórias, ou seja, vetores aleatórios, transportados por uma função determinística. Em seguida veremos exemplos construídos a partir de processos em tempo discreto, como processos de renovação, de contagem de Poisson, e de Poisson composto.

Transporte de uma variável aleatória

Mais geralmente, dada uma variável aleatória YY em um espaço amostral (Ω,A,P),(\Omega, \mathcal{A}, \mathbb{P}), com valores em um espaço "de parâmetros" (Ψ,Y),(\Psi, \mathcal{Y}), e uma função mensurável f:I×ΛΣ,f:I\times \Lambda \rightarrow \Sigma, com valores no espaço de eventos (Σ,E),(\Sigma, \mathcal{E}), podemos definir o processo

Xt=f(t,Y),tI. X_t = f(t, Y), \quad \forall t\in I.

Uma vez sorteado Y(ω),Y(\omega), temos o caminho amostral determinado por

Xt(ω)=f(t,Y(ω)),tI. X_t(\omega) = f(t, Y(\omega)), \quad t\in I.

Nesse caso, a lei para cada XtX_t é dada pelo transporte da lei de YY por f(t,).f(t, \cdot).

Quando o espaço de parâmetros (Ψ,Y)(\Psi, \mathcal{Y}) coincide com o espaço de eventos (Σ,E)(\Sigma, \mathcal{E}) e f(0,x)=x,f(0, x) = x, para todo (ou quase todo) xΣ,x\in \Sigma, a variável aleatória YY representa a condição inicial X0=f(0,Y)=Y.X_0 = f(0, Y) = Y. Em geral, no entanto, YY são parâmetros do processo. Vejamos alguns exemplos.

Processos constantes

Seja YY uma variável aleatória em um espaço amostral (Ω,A,P),(\Omega, \mathcal{A}, \mathbb{P}), com valores no espaço de estados (Σ,E).(\Sigma, \mathcal{E}). Considerando um processo de transporte com f(t,x)=x,f(t, x) = x, obtemos um processo constante no tempo,

Xt=Y,tI, X_t = Y, \quad \forall t\in I,

onde IRI\subset \mathbb{R} é um intervalo real qualquer. Uma vez sorteado Y(ω),Y(\omega), temos o caminho amostral constante Xt(ω)=Y(ω),X_t(\omega) = Y(\omega), tI.t\in I.

Transporte sin(U + t)

Um caso mais interessante é dado por uma variável aleatória representando a fase de um processo senoidal. Mais precisamente, considerando uma variável aleatória com distribuição uniforme em [0,2π),[0, 2\pi), i.e. UUnif([0,2π)),U \sim \mathrm{Unif}([0, 2\pi)), e definindo f(t,x)=sin(s+t),f(t, x) = \sin(s + t), temos o processo

Xt=sin(U+t). X_t = \sin(U + t).

Como o seno é periódico com período 2π,2\pi, os processos XtX_t têm sempre a mesma distribuição:

Xtsin(Unif([0,2π))). X_t \sim \sin(\mathrm{Unif}([0, 2\pi))).

O processo {Xt}tR\{X_t\}_{t\in \mathbb{R}} assume valores em R,\mathbb{R}, mas apenas valores entre 1x1-1 \leq x \leq 1 são realizáveis. A lei de cada XtX_t não é uniforme; há mais chances dos valores estarem próximos de ±1\pm 1 do que de zero. De fato, XtX_t segue uma distribuição arcoseno:

XtArcsin(1,1). X_t \sim \mathrm{Arcsin}(-1, 1).

Para ver isso, observe que sin(U+t)=sin((U+t)mod 2π)\sin(U + t) = \sin( (U + t) \mod 2\pi) e que a distribuição de (t+Unif([0,2π)))mod 2π(t + \mathrm{Unif}([0, 2\pi))) \mod 2\pi é a própria distribuição Unif([0,2π)).\mathrm{Unif}([0, 2\pi)). Assim,

FXt(x)=P(Xtx)=P(sin(U+t)x)=P(sin(U)x). F_{X_t}(x) = \mathbb{P}(X_t \leq x) = \mathbb{P}(\sin(U + t) \leq x) = \mathbb{P}(\sin(U) \leq x).

Como sin(U)\sin(U) só assume valores entre 1-1 e 1,1, temos FXt(x)=0,F_{X_t}(x) = 0, para x<1x < -1 e FXt(x)=1,F_{X_t}(x) = 1, para x>1.x > 1. Agora, para 1x1,-1 \leq x \leq 1, podemos usar a periodicidade e a simetria do seno para escrever essas probabilidades em função da distribuição uniforme em [π,π)[-\pi, \pi) e, em seguida, em [π/2,π/2)[-\pi/2, \pi/2):

FXt(x)=2P(Uarcsin(x),0Uπ)=2PUnif([π,π))(Uarcsin(x),π/2Uπ/2)=PUnif([π/2,π/2))(Uarcsin(x)). F_{X_t}(x) = 2\mathbb{P}(U \leq \arcsin(x), 0 \leq U \leq \pi) = 2\mathbb{P}_{\mathrm{Unif}([-\pi, \pi))}(U \leq \arcsin(x), -\pi/2 \leq U \leq \pi/2) = \mathbb{P}_{\mathrm{Unif}([-\pi/2, \pi/2))}(U \leq \arcsin(x)).

A figura abaixo ilustra essas identidades, com a caixa em laranja exibindo a distribuição uniforme considerada e as partes preenchidas ilustrando a região abaixo de um determinado valor x,x, indicando a probabilidade correspondente.

Agora, podemos calcular explicitamente

FXt(x)=PUnif([π/2,π/2))(Uarcsin(x))=1ππ/2arcsin(x) ds=12+1πarcsin(x). F_{X_t}(x) = \mathbb{P}_{\mathrm{Unif}([-\pi/2, \pi/2))}(U \leq \arcsin(x)) = \frac{1}{\pi} \int_{-\pi/2}^{\arcsin(x)} \;\mathrm{d}s = \frac{1}{2} + \frac{1}{\pi}\arcsin(x).

Essa distribuição possui a função de densidade de probabilidade

ddxFXt(x)=1π11x2,1<x<1. \frac{\mathrm{d}}{\mathrm{d} x}F_{X_t}(x) = \frac{1}{\pi}\frac{1}{\sqrt{1 - x^2}}, \quad -1 < x < 1.

Transporte sin(Ut)

Um outro exemplo importante é dado por

Xt=sin(Ut), X_t = \sin(Ut),

onde, novamente, UUnif([0,2π)).U \sim \mathrm{Unif}([0, 2\pi)). Nesse caso, UU representa uma frequência aleatória. Cada caminho amostral é um simples seno, tXt(ω)=sin(U(ω)t).t \mapsto X_t(\omega) = \sin(U(\omega)t).

A lei também é dada pela distribuição arcoseno, em cada tempo, i.e. XtArcsin(1,1),X_t \sim \operatorname{Arcsin}(-1, 1), de modo que esse processo também é um processo identicamente distribuído. O mais significativo, no entanto, é que, com a frequência de cada seno sendo dada aleatoriamente, o conjunto de trajetórias dispersa bastante, a ponto das estatísticas conjuntas se descorrelacionarem. Veremos que esse é, surpreendentemente, um exemplo de um ruído branco, em que XtX_t e XsX_s não estão correlacionados, quando ts,t \neq s, ou seja, Cov(Xt,Xs)=0,\operatorname{Cov}(X_t, X_s) = 0, ts.t\neq s.

Gaussiana senoidal

Também podemos construir processos contínuos a partir de mais de uma variável aleatória. Considere, por exemplo, duas variáveis aleatórias quaisquer, Y1Y_1 e Y2,Y_2, em um mesmo espaço amostral e com valores em um espaço de estados comum. Considere aRa\in \mathbb{R} e defina

Xt=cos(at)Y1+sin(at)Y2,tR. X_t = \cos(at)Y_1 + \sin(at)Y_2, \quad t\in \mathbb{R}.

No caso em que Y1Y_1 e Y2Y_2 têm distribuição normal independente, temos que XtX_t também é uma distribuição normal, com média e desvio padrão dados por

E[Xt]=cos(at)E[Y1]+sin(at)E[Y2],Var[Xt]=cos2(at)Var[Y1]+sin2(at)Var[Y2]. \mathbb{E}[X_t] = \cos(at)\mathbb{E}[Y_1] + \sin(at)\mathbb{E}[Y_2], \qquad \mathrm{Var}[X_t] = \cos^2(at)\mathrm{Var}[Y_1] + \sin^2(at)\mathrm{Var}[Y_2].

Veremos, em outro momento, que {Xt}tR\{X_t\}_{t\in \mathbb{R}} é um exemplo de processo Gaussiano.

Processo de renovação e o contador de Poisson

Os processos de renovação são processos contínuos com estados discretos e são dados a partir de uma sequência de variáveis aleatórias discretas representando intervalos de tempo para "saltos" de estado. Mais precisamente, sejam {Sj}jN\{S_j\}_{j\in \mathbb{N}} variáveis aleatórias positivas, independentes e identicamente distribuídas e com esperança finita, E(Sj)<.\mathbb{E}(S_j) < \infty. Para cada n,n, definimos os instantes de salto

Tn=j=1nSj. T_n = \sum_{j = 1}^n S_j.

Cada SjS_j representa um intervalo de tempo entre saltos consecutivos e cada TnT_n indica o instante do nn-ésimo salto, que é o acumulado dos intervalos de salto.

O processo de renovação baseado nessas saltos é dado por

Xt=nNχ[Tn,)(t)=sup{n; Tnt}, X_t = \sum_{n\in \mathbb{N}} \chi_{[T_n,\infty)}(t) = \sup\{n; \; T_n \leq t\},

onde χ[Tn,)\chi_{[T_n,\infty)} é a função característica do intervalo [Tn,),[T_n,\infty), ou seja, χ[Tn,)(t)=1,\chi_{[T_n,\infty)}(t) = 1, se tTn,t \geq T_n, e χ[Tn,)(t)=0,\chi_{[T_n,\infty)}(t) = 0, se t<Tn,t < T_n, indicando se tt já passou pelo ponto de salto TnT_n ou não.

Processos de renovação são usados para modelar sequências sucessivas de falhas de equipamentos (e.g. máquinas, velas, cabos, lâmpadas, etc.). Por exemplo, imagine um motor que precise de um cabo para movimentar uma polia. Sempre que um cabo arrebenta, a produção é interrompida, até que a troca seja feita. A vida útil de cada cabo é uma variável aleatória e as sucessivas quebras são assumidas independentes. Cada intervalo de tempo YjY_j representa a vida útil de um cabo. Cada ZnZ_n representa o momento da nn-ésima quebra. A variável XtX_t modela o número de quebras, ou trocas de cabo, até o instante t.t.

O contador de Poisson é um processo de renovação onde cada salto SjS_j seque uma distribuição exponencial,

SjExponential(λ), S_j \sim \operatorname{Exponential}(\lambda),

para algum λ.\lambda. O processo correspondente, usualmente denotado {Nt}t0\{N_t\}_{t\geq 0} é chamado de contador de Poisson com taxa λ,\lambda,

Nt=j=1nSj. N_t = \sum_{j = 1}^n S_j.

Processos de renovação e recompensa e o processo de Poisson composto

Junto com um processo de renovação {Xt}t0\{X_t\}_{t \geq 0} como acima, obtido a partir de variáveis aleatórias positivas independentes {Yj}jN,\{Y_j\}_{j\in \mathbb{N}}, podemos ter, a cada evento Zn=j=1nYj,Z_n = \sum_{j=1}^n Y_j, uma "recompensa"/"custo" {Wn}nN,\{W_n\}_{n\in \mathbb{N}}, que é uma variável aleatória real (ganhos e perdas). O total de recompensa após um tempo tt é dado pelo (lembrando que XtX_t assume valores inteiros não negativos) processo de renovação e recompensa

Yt=i=1XtWi. Y_t = \sum_{i = 1}^{X_t} W_i.

No caso de um contador de Poisson {Nt}t0,\{N_t\}_{t\geq 0}, com recompensas/custos {Cn}nN,\{C_n\}_{n\in\mathbb{N}}, obtemos um processo de Poisson composto

Yt=i=1NtCi. Y_t = \sum_{i=1}^{N_t} C_i.
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